TRADUZIR O MANIFESTO EM TEMPOS DE REVOLTA FEMINISTA

4 Jul 2018

 

Créditos da ilustração: Muralistas por el aborto

 

Nota das/os editoras/es: os trechos abaixo são extraídos de comentários da intelectual Verónica Gago à nova edição do Manifesto Comunista publicada pela editora Ponte Alle Grazie, na Itália. Junto a outros intelectuais de renome, como Antonio Negri, Étienne Balibar e Slavoj Zizek, Gago, uma das principais referências contemporâneas do movimento feminista na América Latina e da crítica teórica ao neoliberalismo, atualiza questões de um dos escritos mais conhecidos de Marx, destacando a importância do pensamento feminista para uma nova interpretação sobre o mundo do trabalho em sociedades capitalistas. Boa leitura! 

 

 

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Estou tentada a escrever: um fantasma ronda a América Latina: o fantasma do feminismo. Porque se penso em um manifesto me remeto a um escrito recente: o chamado à greve internacional de mulheres de 2017, cujo caráter de “manifesto” me situa em uma possibilidade concreta de pensar a atualidade dessa forma de intervenção. Poderíamos perfeitamente listar as forças reativas que postulam o movimento feminista como ameaça: o Papa e a formulação doutrinária da igreja de uma "ideologia de gênero”; as forças conservadoras que impugnaram os acordos de Havana para boicotar a paz na Colômbia, as que promoveram o impeachment da presidenta do Brasil ou as que repudiam a educação sexual no Peru; todas convergem na condenação em nome da moral familiar, da dissolução dos papeis de gênero e da promiscuidade da ordem social. Utilizada como acusação, a palavra "feminista" funciona como insulto e desqualificação, mas não mais entre representantes partidários (como se referem Marx e Engels falando da acusação de comunista) senão para mencionar uma força desagregadora que opera sobretudo no nível das sensibilidades e dos corpos, dos gostos e costumes, do confinamento dos espaços e dos papeis na divisão sexual do trabalho.

 

Passar do fantasma ao manifesto no caso do feminismo implica nomear o movimento que a revolução de um feminismo, que se faz popular, porque se envolve com a conflitualidade territorial (que é um corpo extenso que desafia frontalmente os limites do corpo como “individuo”), que se envolve com uma transformação nos modos de vida e que permite por sua amplitude e transversalidade ser lido hoje como “um movimento histórico que está se desenvolvendo perante aos nossos olhos”. Por isso, como método, tentarei ler aqui algumas das questões que planteia o manifesto comunista – e em particular sua convocação final: Proletários de todo o mundo, uni-vos! – desde a perspectiva de um manifesto feminista.

 

Trata-se de um exercício duplo de tradução. Traduzir é trabalhar com uma língua estrangeira “mas também com um estado da língua para qual se traduz” (assim afirmou o escritor argentino Ricardo Piglia para explicar porque de tempos em tempos se sente a necessidade de fazer novas traduções para os mesmos textos). Ampliando essa hipótese, diria que a língua comunista hoje – e com ela me refiro a certos problemas chave das formas de exploração e de domínio, da organização política y da transformação radical, das classes e das subjetividades que as encarnam, do internacionalismo e a política de coalizões – como língua revolucionária necessariamente se fragmenta, para atualizar-se como tal, como a língua feminista. Uma que hoje é, talvez, a mais múltipla das línguas em movimento.   

 

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O que significa pensar a existência proletária desde o ponto de vista feminista? O manifesto comunista postula o sujeito da política comunista a partir de lê-lo à contraluz do capital, estabelecendo o antagonismo fundamental (“A condição do capital é o trabalho assalariado”). Poderíamos afirmar, a princípio, que os cruzamentos de certas perspectivas feministas, marxistas e anti-coloniais fazem um movimento similar sobre o enunciado de Marx, mas pelo interior de um dos polos do antagonismo: a condição do trabalho assalariado é o trabalho não assalariado ou a condição do trabalho livre é o trabalho não livre. O que acontece quando se abre um dos polos? É o movimento fundamental pelo qual se intercepta a diferença com a classe.

 

Isso nos permite contradizer a própria leitura de Marx e Engels sobre a diferença em relação ao trabalho das mulheres. Eles argumentam que o desenvolvimento da indústria moderna através do trabalho manual técnico implica um tipo de simplificação dos trabalhos que permite que se suplante os homens por mulheres e crianças. Entretanto, “Pelo que diz respeito à classe operária, as diferenças de idade e de sexo perdem toda significação social”, apontam. Neste sentido, lemos que a incorporação da diferença se faz sob sua anulação. Mulheres e crianças são incorporados na medida em que são homogeneizados como força de trabalho (funcionando como apêndices da máquina), o que permite não xs diferenciar. A diferença, no argumento que Marx e Engels desenvolvem, fica reduzida a uma questão de custos. Idade e sexo são variáveis de barateamento, mas sem significação social. Entendemos que aqui se trata do ponto de vista do capital. Dirá também Marx em O capital que a maquinaria amplia o material humano explorado, na medida que o trabalho infantil e feminino é a primeira palavra de ordem do maquinismo. De novo, essa ampliação se dá em términos de uma homogeneização ditada pela máquina, mas a diferença fica anulada ou reduzida a uma vantagem homogeneizada também pela noção de custo. Então, parece dar-se sobre uma abstração dupla da diferença: pelo lado das máquinas (do processo técnico de produção), mas também pelo lado do próprio conceito de força de trabalho.

 

Quando reescrevemos o manifesto pela chave feminista, fazemos a operação inversa. Fazemos uma leitura inclusiva de quem somos produtoras de valor na chave de pensar como a diferença reconceitualiza a noção de força de trabalho. Os corpos em jogo dão conta das diferentes tarefas em términos de um diferencial de intensidade e de reconhecimento, impedindo a cristalização de uma figura homogênea do sujeito trabalhador. O trabalho desde a lente feminista excede os que cobram salário porque repõe como condição comum experimentar diversas situações de exploração e opressão, mais além e mais aquém da medida remunerativa. O trabalho, desde a lente feminista, faz do corpo uma medida que transborda a noção de força de trabalho meramente associada ao custo.

 

Nos valemos também da perspectiva feminista que pôs em foco que a crítica a essa homogeneidade da força de trabalho deve partir do elemento que "opera” a homogeneização, já que não seriam apenas as máquina (como afirma o Manifesto), mas também o “patriarcado do salário” (Federici). Isto supõe duas operações: o reconhecimento de apenas uma parte do trabalho (o assalariado) e logo a legitimidade de seu diferencial segundo sexo e idade apenas como desvalorização. Nesta linha, compreendemos o trabalho assalariado como uma forma específica de invisibilização do trabalho não assalariado que se produz em geografias múltiplas e que dá forma ao que entendemos por tempo de trabalho.

 

Hoje, graças às lutas e às teorizações feministas, podemos argumentar desde uma realidade contrária: a ampliação do material humano explorado de que falava Marx se faz a partir da exploração de sua diferença. Invisibilizando-a, traduzindo-a como hierarquia, depreciando-a politicamente e/ou metamorfoseando-a em um extra para o mercado. Um manifesto feminista hoje é um mapa da heterogeneidade atual do trabalho vivo capaz de exibir, em termos práticos, o diferencial de exploração que, como em uma geometria fractal, usufrui todas as diferenças que se queriam abstrair na hipótese que universalizava o proletariado assalariado. Porém um manifesto é mais que uma denúncia. É uma proposta de ação. Por isso, um manifesto feminista reconhece nessa diversidade de experiências de exploração e extração de valor a necessidade de uma nova modalidade organizativa que não cabe na hipótese que universalizava o partido.

 

 

 

Verónica Gago é graduada em Ciência Política e doutora em Ciência Sociais pela Universidad de Buenos Aires (UBA), onde atualmente é professora. É também integrante do Coletivo Ni Una Menos, docente do Instituto de Altos Estudios Sociales da Universidad Nacional de San Martín (IDAES-UNSAM) e autora do livro La razón neoliberal. Economías barrocas y pragmática popular, publicado pela Tinta Limón em 2014 e traduzido ao inglês em 2017 pela Duke University Press.

Editores responsáveis: Marcia Rangel Candido e Rafael Rezende

 

 

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