PAZ ENCINA E O CINEMA-MEMÓRIA

18 Jun 2018

 

Há algumas semanas partia para o Paraguai, este Paraguai que o dicionário Larousse, de acordo com Le Bottin, qualifica de Paraíso Terrestre; mas bem sei que não terminei de buscá-lo, que o buscarei sempre, que buscarei sempre essa rota perdida, apagada da memória dos homens.

Rafael Barrett

 

O imaginário de um Paraguai próspero e desenvolvido economicamente, do século XIX, foi destruído na Guerra da Tríplice Aliança, - contra Brasil, Argentina e Uruguai -, seguida pela Guerra do Chaco, a maior da América do Sul. O cinema de Paz Encina tem se colocado diante do desafio de encontrar este Paraguai "apagado da memória dos homens", que se busca e não se encontra, que só existe na melancólica memória de um país que vive no futuro do pretérito. Ao buscar o passado, seu cinema se depara com as esperas inúteis por tempos melhores e com os fantasmas esquecidos da ditadura de Stroessner, sua câmera avança contra os traumas da memória coletiva do país, ou em suas próprias palavras:

 

Estamos condenados à maldição de repetir sempre os mesmos esquemas, aqueles que inclusive nos cortaram a tradição oral e nos condenaram a um silêncio que não tem nada a ver com o sublime. Era por isso meu interesse por uma dupla temporalidade, me interessava encontrar o instante entre um passado já terminado e um futuro exatamente igual.

Encina apud Russo, 2017

 

Buscar a memória e se deparar com a ausência, esperando melancolicamente o regresso de algo, mas permanecer estático. Como os trovões que anunciam uma chuva para findar o calor, ou o fim da Guerra do Chaco, que anuncia o regresso de um filho combatente, em Hamaca Paraguaia (2006). O tempo balança em uma rede, como um ponteiro parado, e o esperado nunca chega. O que Paz Encina nos traz em seu primeiro longa é a impossibilidade de algo voltar a ser o que era, ao mesmo tempo que reflete sobre este passado não ter sido tão bom, como às vezes se projeta.

 

Há muito tempo, nós, latino-americanos, sabemos que buscar nossa memória é nos deparar com o esquecimento: a ausência de conhecimento de nosso passado pré-colonial; o desaparecimento dos nomes e dos corpos atirados ao mar em nossas diversas ditaduras; o acobertamento do terrorismo de Estado contra povos negros e indígenas. Juan Rulfo, em seu livro Pedro Páramo, trouxe uma ilustração possível desse sentimento. Ao retornar à cidade de seus antepassados, Juan Preciado se depara apenas com os ecos de outros tempos e fantasmas que vivem numa cidade vazia. A evidência de um sentimento que nos une através de marcas de nosso processo histórico: esquecer é mais fácil que lembrar.

 

No clima histórico-cultural das comemorações do Bicentenário da Independência Paraguaia, em 2011, "numerosas obras audiovisuais e literárias não só reconstruíram importantes capítulos do passado do país, senão que sobretudo refletem sobre os habituais processos culturais e lingüísticos de construção e representação de conteúdos extraídos da memória coletiva" (Petzoldt, 2015). Para este momento Encina mergulhou na materialidade da memória dos Arquivos do Terror: acervo encontrado em 1992, contendo material da repressão política no país desde 1917 até 1989, e realizou vários curtas e quatro videoinstalações.

 

A primeira, das videoinstalações nomeadas Notas de Memória, projetava as repressões à Marcha do Silêncio na igreja de seu ocorrido, um protesto organizado em 1988 por um padre. A segunda Los Pyragüés projetava trechos de denúncias e fotos encontradas nos arquivos, nas janelas do Edifício de Investigações. A terceira, alusiva às leis de exílio, projetava escritos no asfalto. E a quarta, El Río, projetava imagens de desaparecidos da ditadura sobre o rio Paraguai. Ao juntar as imagens encontradas de um passado esquecido e sangrento, com a materialidade dos locais ainda existentes, passado e presente se unem de tal forma a preencher vazios da memória, denunciando a falta de vontade pelas investigações desses fatos.

 

Das inúmeras visitas de Paz aos Arquivos do Terror surgiu também uma trilogia de curtas: em Viento Sur (2011) os sons de água, trovoadas, projetores e as ambiências preenchem o diálogo de Domingo e Justino. Uma câmera subjetiva  sugere o olhar de alguém escondido numa casa na beira de um rio, ou as memórias desta pessoa, que passam sem sincronia com o diálogo que ouvimos: um deles pensa em escapar pelo rio, o outro está preocupado com sua memória, se seu corpo será encontrado e se sua família será informada.

 

"Se eu morro, que ao menos me encontrem, que nos possam chorar as mulheres. Já nem Deus quer pensar nos que foram ao fundo"

Justino, em Viento Sur

 

 

Frame 1 de Viento Sur

 

 

Tanto em Arribo, como em Familiar, áudios e fotos de arquivo são montados sem tentativa de sincronia entre imagem e som. Talvez, essa assincronia seja sua reflexão cinematográfica mais importante sobre a inconsistência da memória. Familiar começa com o juramento de Stroessner ao chegar ao governo. Depois ouvimos uma delação familiar, a tradução logo deixa de acompanhar as vozes, já não é necessário saber ao exato o que é dito em guarani, nos basta o tempo para refletir sobre o passado repressivo olhando as imagens dos arquivos, pensando nas vítimas. O exercício aqui é ouvir os ecos da memória, como se o espectador fosse Juan Preciado andando pela cidade fantasma de Comala. O mesmo passa em Arribo, com a polícia interrogando Benigno Perrotta, no aeroporto de Assunção.

 

É preciso exercitar a memória para não repetir os erros, para não acreditar em um passado glamouroso, quando em realidade ele foi sangrento. Ejercícios de Memória é a tentativa de reconstruir a memória de um desaparecido, o médico Goiburú, opositor do regime Stroessner (que deixou mais de 128.000 vítimas, entre torturados, mortos e desaparecidos), mas, como sugere o próprio título do filme, não se trata de um documentário biográfico em que as aventuras do médico seriam narradas. Paz Encina encontra uma linguagem onde é possível trazer diversas maneiras de exercitar a memória, através da tradição, da oralidade, das lembranças e dos objetos.

O rio, tão importante na história política do país, por onde fugiram exilados e onde corpos foram ocultados, é o primeiro ambiente apresentado. Há um profundo mergulho sob a narração off de uma criança que narra como seus antepassados rezavam no rio e como, de geração em geração, a tradição foi mantida e modificada.

 

Still Ejercicios de Memoria por Paula Eleod

 

Os áudios de depoimentos dos filhos de Goiburú e sua esposa são montados de maneira bastante própria, entrecortando-se uns aos outros, e remontando a história com seus detalhes incertos, dúvidas e contradições, sempre em off, sobre imagens de algumas crianças brincando pela selva, entre ruínas de uma casa antiga. O resultado é um filme que busca pela memória, sem encerrar em si uma verdade. Só ao final a diretora traz as fotos e arquivos da Polícia de Investigação relacionados a Goiburú, detalhes de sua perseguição.

 

Ejercícios de Memória usa os recursos comuns de um documentário: narração off para introduzir o filme, reprodução do passado com as crianças e a mulher que costura, áudios de entrevistas e material de arquivo, mas inova na montagem. Ao não dar imagem aos que têm voz apenas deixa que as memórias desencontradas e com partes faltando apresentem um mundo de memórias imagéticas de coisas que já não existem. Para além de equilibrar-se na borda entre documentário e ficção, Paz incorpora a este debate linguístico propondo um filme de memórias. Num país de tradição oral, um filme de vozes.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

BARRET, Rafael. El Dolor Paraguayo. Fernandez, Miguel A. (compilação). Biblioteca de Ayacucho. 1978.

ORTÍN, Pere. PAZ ENCINA: Paraguay desde una hamaca. Altair Magazine. Disponível em: https://www.altairmagazine.com/paraguay-con-ojos-de-cineasta <Acesso em 21 de maio de 2018>

PETZOLDT, Bruno López. MEMORIA, ESCRITURA Y POESÍA en “Principio” de Miguel Ángel Caballero Mora. Cadernos de estudos culturais, Campo Grande, MS, v. 1, p. 9-20, ago./dez. 2015.

RULFO, Juan. Pedro Páramo e Chão em Chamas. Rio de Janeiro; São Paulo: Record, 2004.

RUSSO, Eduardo A. PAZ ENCINA: el gesto de recordar. Arkadin (N.° 6), pp. 26-41, agosto 2017. Facultad de Bellas Artes. Universidad Nacional de La Plata. Disponível em: http://sedici.unlp.edu.ar/bitstream/handle/10915/63042/Documento_completo.pdf-PDFA.pdf?sequence=1 <Acesso em 21 de maio de 2018>

 

FILMOGRAFIA

 

ARRIBO. Direção: Paz Encina. 2015. (11 minutos). Disponível em: https://vimeo.com/117133506 <Acesso em 17 de maio de 2018>

EJERCICIOS de memória. Direção: Paz Encina. 2016. (67 minutos)

FAMILIAR. Direção: Paz Encina. 2014. (10 minutos). Disponível em: https://vimeo.com/113152965 < Acesso em 15 de maio de 2018>

HAMACA Paraguaya.. Direção: Paz Encina. 2006. (78 minutos).

LA NACIÓN, Cultura. Paz Encina - Notas de Memoria. 2013. (4min 26s). Disponivel em: https://www.youtube.com/watch?v=FgC3BxcMquI <Acesso em 21 de maio de 2018>

VIENTO Sur. Direção: Paz Encina. 2011. (23 minutos). Disponível em: https://vimeo.com/24087462 <Acesso 17 de maio de 2018>

 

 

Lílian de Alcântara é cineasta pela Universidade Federal da Integração Latino-americana (UNILA), co-fundadora do coletivo Las Viralatas e diretora de "Onde Anoitece" (2018) e "Putta" (2017)

Contato: lilianalc92@gmail.com

Editora responsável: Samantha Brasil

 

 

 

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